terça-feira, 17 de abril de 2012

Ritual do espelho quebrado e perfumado



E ao acordar, Joana se depara com a imagem distorcida que seu espelho refletia. Mas não! De ontem em diante tudo seria novamente claro, nada mais tão turvo. Após aquela noite insone, tudo voltara a ter a iluminação e a certeza de antes. Não mais a dúvida! 
Era o que :Joana acordara sentindo naquela tarde ensolarada, iluminada. O escurso e turvo fora sepultado na noite que passara em claro, naquela noite clara, em que tudo de repente ganhou uma luz especial. 
Ainda em frente ao espelho, Joana abre a boca e começa a proclamar as primeiras palavras de um presente de libertação...
- E nesta fase de ser só, de não ser minha nem ser tua ou nua, reencontro com algo que fora perdido na caminhada recente da minha vida errante. Reencontro meu eu puro. O meu mais sublime ser, o mais completo esmero. Distraí-me por vezes e me perdi às vezes por entre sentimentos que não são meus, nem seus, nem nus. Por determinado instante realmente acreditei que seriam parte de mim, mas hoje vejo que não me via. Hoje sei que até sabia, mas não enxergava. Vejo-me alimentando quereres que não me preenchem, não me completam. E agora, como me vejo como se estivesse a frente do espelho límpido, sei o que devo descartar, sei exatamente o que inutilizar, ou melhor, sei exatamente o que me é inútil, o que é entulho. E, como num salto de liberdade ao encontro de um abismo cheio de vida, atiro no espelho, que refletiu o meu eu distorcido enquanto ele esteve sujo, um vidro do perfume que também não poderia continuar exalando seu cheiro durante a minha nova velha existência que estava por ser reiniciada. Como num passe de mágica, e após um ato de extrema euforia e libertação, tenho em meu quarto agora um espelho quebrado, um perfume cheirando a passado, um coração renovado, um ser renascido. O espelho? Varrerei seus cacos, mas terei o cuidado de deixar na parede sua moldura, para que eu jamais esqueça o que realmente me completa, para que o espelho de minha alma não mais se encha de poeira e confunda meu ser. O perfume? Varrerei também seus cacos. Logo não mais incensará este quarto. E, quando isto ocorrer, minha existência terá novos odores. O coração? Não mais recorda os sentimentos que esteve cativando erroneamente e já se faz novo. O ser? Novamente é completo, pleno, sereno, consciente novamente dos sentimentos que o preenchem e não o enchem.

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